Capítulo 3

11 de fevereiro de 2016









Eles já estavam juntos havia seis meses. Verônica sabia que o envolvimento deles tinha sido rápido demais, contudo não pestanejara ao aceitar o convite de Jonas para ir morar com ele. No momento em que o namorado entrou na cozinha, ela soube pelo semblante dele que algo havia acontecido. Ou aconteceria. E antes que pudesse lhe dizer algo carinhoso, como sempre fazia quando ele chegava em casa, ele indagou:
— Esteve aonde? – o tom soou agressivo.
Ela balbuciou:
— Em lugar nenhum... Por quê?
Ele observou-a, a viu passar a língua pelos lábios nervosamente, e então soube que ela estava mentindo. Mais uma vez.
— Só fui na casa da Alice hoje à noitinha, Jonas. Depois voltei pra casa. E só. Mas por que está me perguntando isso?
— Eu liguei pra Alice hoje e ela não me falou nada sobre isso.
Verônica pensou rápido.
— Bem, na certa porque eu já devia ter voltado pra casa quando isso aconteceu...
— Eu liguei pra Alice exatamente à noitinha - interrompeu ele - como você falou. Você não disse que esteve lá à noitinha? Então. Foi a hora que eu liguei pra Alice.
Verônica balbuciou algo, confusa, afastando-se dele. Sabia que Jonas era ciumento e desconfiado demais. Não era tão fácil assim despistá-lo, muito menos enganá-lo e ela, atrapalhada do jeito que era, confundia-se sempre em suas mentiras. Verônica respirou fundo. Bom, o fato era que ela havia ido, sim, à boate àquela noite, afinal, estava sozinha em casa. Ele queria que ela fizesse o quê? Ficasse à noite toda o esperando? Sabia que ele estava em mais um plantão e não chegaria tão cedo em casa. Pelo menos, na boate ela poderia se distrair e se divertir com as amigas e não se sentiria tão só. Não entendia o porquê do companheiro se incomodar tanto com a ideia.
— E então? – insistiu ele, fitando-a – não vai me contar a verdade?
— Que verdade, Jonas? Eu já falei, meu Deus do céu... estive hoje na casa da Alice. Depois vim pra casa... foi isso... se não acredita, então por que não liga pra ela pra confirmar?
Ele deu alguns passos em direção a ela e a fez estremecer-se.
— Eu já liguei pra Alice. E ela me contou tudo. Agora eu quero que você pare com essa maldita mentira e me conte logo a verdade! – e estreitou os olhos – eu sei que você não esteve coisa nenhuma hoje na casa da sua amiga! E sabe por quê? Porque eu liguei pra ela, já que a droga do seu celular estava outra vez desligado e ela, com aquela voz de bêbada, me garantiu que vocês estavam lá dentro daquela bosta de bar – bebendo e rebolando. Segundo as próprias palavras dela: rebolando. Então, pra que se fazer de inocente agora? O que me diz disso?
Ela afastou-se, insegura. Sabia pelo tom de voz que Jonas estava nervoso. Ele aproximara-se de uma forma ameaçadora, fazendo-a vacilar.
— Por que você mente tanto pra mim? – insistiu ele – por que mente tanto na maior cara de pau? Me fala. Eu, por acaso, tenho cara de otário? É isso?
— Jonas...
— Jonas é o cacete! Eu tô falando sério com você, sua mentirosa! Olha pra mim. Vê se eu estou brincando!
Ela engoliu em seco, tensa.
— Não é nada disso que você está pensando, tá legal? – foi a vez dela alterar-se – eu fui só beber um pouco por distração... e sabia que você não ia gostar se eu te contasse a verdade... você sempre reclama! Então eu inventei essa desculpa. Pronto. Foi isso. Satisfeito agora?
Ele respirou fundo, tentando controlar a raiva. Detestava a ideia da mulher frequentar a boate onde antes trabalhara.
— Se sabe que eu reclamo, então por que você continua indo pra aquela porcaria de bar? É pra me irritar? Pra me deixar puto da vida? Hã?
— Para! – gritou ela, nervosa, afastando-se – para, que você não manda em mim, tá legal? Não é meu dono! Põe isso nessa sua cabeça dura! Nem mesmo uma droga de aliança você colocou aqui no meu dedo! – e mostrando o dedo – está vendo aqui alguma coisa, está? Então quer o quê?
Ele virou-se, dando-lhe as costas.
— Eu devia mesmo fazer o que meu pai diz... – resmungou – devia te mandar pastar... – e seguiu para o quarto.
Verônica teve vontade de chorar. Principalmente pelo modo como ele falara. Na verdade não tinha lugar para onde ir. Era sozinha no mundo. Não tinha mãe, pai, avós ou mesmo irmãos... só uma tia velha que morava em outra parte da cidade mas com quem ela não tinha muito contato. Suspirando, ela dirigiu-se à louça que estava enorme na pia. Tinha saído à noite e esquecido os afazeres de casa. Afazeres que a sociedade estipulou, que ela, como mulher, fizesse.
Jonas voltou minutos depois, ainda agitado e apontando o dedo para ela.
— Não te quero outra vez naquela merda de boate, está me ouvindo? E da próxima vez eu posso não mais responder por mim – e virou-se outra vez, sumindo da vista dela.
Verônica sentiu raiva. Ele não tinha o direito de tratá-la como se ela fosse uma criança, ou mesmo uma qualquer. Então era isso que Jonas pensava? Que ela era uma qualquer?
Seguindo ao quarto, Jonas percebeu que estava nervoso demais – precisava se acalmar. Ultimamente aquele era seu estado normal. Andava irritado demais e impaciente por qualquer coisa. Devia aquilo à grande pressão no trabalho. O estresse na delegacia era cada dia maior e mais insuportável. Estava há quase dez anos na polícia civil e a cada dia se sentia mais exausto e impaciente com tudo o que acontecia. Naquele momento, dirigiu-se ao banheiro e foi tomar um banho. Gelado. Seria bom para relaxar. Tirou rapidamente a camisa, a calça e a cueca. Abriu o chuveiro e entrou sob a água. Vivia com Verônica havia pouco menos de um ano e antes dela só havia tido uma esposa na vida. Além delas, seus relacionamentos sempre se limitaram a uma boa noite de sexo e a casos passageiros. Nada sério. Sempre fora um cara reservado e ciumento, no entanto, não admitiria aquilo. Jamais. Mas no fundo a ideia de ser passado para trás ou mesmo enganado o fazia beirar à loucura. A primeira esposa era bem tranquila e por isso quase não havia conflitos entre eles. Foram três anos juntos mas apesar da paz, os dois eram infelizes e ela ainda mais por causa da ideia de não poder ter filhos. Divorciaram-se numa boa, sem guerras ou traumas. Depois disso nunca mais se viram. Depois Jonas conhecera Verônica. Ela era mais ousada e vinha de um estilo de vida não muito confiável e talvez fosse por isso que a cabeça de Jonas vivia a mil, sempre em estado de alerta. Verônica era uma ex-dançarina de boate. Sim, praticava pole dance. Inclusive fora na boate que os dois se conheceram. Ela trabalhava como garçonete e fazia shows ao lado de outras funcionárias do estabelecimento. Após alguns encontros, já apaixonado, Jonas a convidou para ir morar com ele. Daria sustento, um teto seguro e proteção. Em troca ela lhe daria sexo, carinho e fidelidade. Essa última palavra era imprescindível. Fidelidade. Verônica prometera não voltar a dançar. Nem mesmo de brincadeira em bar algum. Jonas cobraria aquilo.
Enquanto lavava a louça, Verônica sentiu as mãos trêmulas. Por um momento deixou um copo cair e espatifar-se no chão. Agachou-se, catou caco por caco e depois o jogou no lixo. Estava nervosa. Não gostava de brigar, mas estava sendo praticamente impossível viver os últimos meses com Jonas. Os primeiros haviam sido intensos e maravilhosos. Ele era atencioso, carinhoso e paciente com ela. Transavam várias vezes por dia e ele sempre lhe falava palavras doces e dava-lhe carinho como nunca um homem lhe dera. Ela se sentia muito amada e desejada na companhia e nos braços firmes dele. Até porque Jonas era policial e aquilo sempre mexera com a fantasia dela. E ele era ótimo na cama. No entanto, agora ele se mostrava um cara possessivo, autoritário e controlador. Ainda não havia lhe levantado a mão, mas ás vezes ela tinha a impressão de que ele o faria. Além disso, demonstrava querer controlar sempre seus passos, aonde quer que ela fosse. Ligava várias vezes ao dia e a interrogava, e por mais inocente que Verônica se sentisse, os olhares desconfiados de Jonas sempre a faziam sentir-se culpada. Nunca inocente. Ela suspirou. Após perder os pais, passou a viver com a avó até tornar-se maior de idade, mas quando esta morreu, ficou sem casa, sem dinheiro e sem amparo. Teve que morar de favor em casas de colegas em tempo e tempo e que se arranjar sozinha. A vida nunca fora fácil para ela. Seu primeiro emprego havia sido numa lanchonete. Trabalhara como uma condenada e ainda por cima era frequentemente cantada e ultrajada por fregueses de todos os tipos. Nunca precisou se prostituir na vida por um prato de comida e agradecia muito a Deus por aquilo. Certamente seria o fim da picada, mas o que ela poderia fazer? Não tinha ninguém. Já havia engolido muito sapo na vida. Sabia como ninguém como era ser uma garota pobre e indefesa naquele mundo hostil. E quando conheceu Jonas na boate, achou que finalmente havia encontrado seu príncipe encantado. Policial, bonito, destemido. Era assim que ele era. Jonas passou a frequentar a boate quase todas as noites e eles sempre namoravam após o expediente. Poucos meses depois eles já estavam vivendo juntos numa casa bonita e confortável. Verônica sabia que não precisaria mais trabalhar. Aliás, ele até preferia que fosse assim. Parecia um conto de fadas. Mas ela logo percebeu que contos de fadas não existiam e se decepcionou mais uma vez. Jonas demonstrou ser mais um sujeito machista e controlador. Exigia casa arrumada, comida pronta e mulher sempre disposta para o sexo. Verônica, naquele momento, respirou fundo. Ainda estava lavando a louça quando foi agarrada por trás, de repente. Jonas estava cheiroso, com os cabelos úmidos, e a pele fria da água do chuveiro.
— Me deixe em paz – murmurou ela, desvencilhando-se.
Não havia gostado nada do modo como ele falara com ela minutos atrás. Portanto, não haveria mais clima para namorar. Não depois daquilo.
— Me desculpa, tá? – sussurrou ele, lhe cheirando o pescoço – eu cheguei com a cabeça quente de novo... e mais uma vez você não tem culpa de nada. A culpa é toda minha.
Ela não se convenceu. Estava magoada demais. Não queria conversa com ele. Preferia que ele fosse dormir.
— O que você falou não tem desculpa... e isso já tá virando habitual.
Ele a abraçou por trás.
— Eu sei, e é por isso que eu estou pedindo desculpa... – e voltou a lhe cheirar o pescoço – hein? Me desculpa?
— Posso até te desculpar, mas não quero namorar... me deixe em paz, que eu tenho uma louça pra lavar...
Ele pensou um pouco e parou de agarrá-la.
— Certo – e observando o que ela fazia – não vou jantar, ok? Vou dormir então. Não se preocupe comigo.
Ela deu de ombros e não respondeu. Quem disse que se preocuparia? Se ele não queria jantar, que não jantasse. O problema era dele. Já estava bem forte e saudável e não seria uma noite sem comer que o deixaria mais magro e debilitado.
Sentiu que Jonas havia seguido para o quarto para provavelmente deitar e dormir. Verônica terminou a louça, e então, sentiu uma tontura, de repente. Afastando-se da pia, puxou uma cadeira e sentou-se. Fazia dias que estava se sentindo assim. Até desconfiava de aquilo pudesse ser sinal de gravidez, mas ainda não tivera coragem para fazer o exame. A primeira vez que pensou na ideia havia ficado feliz. Seria ótimo dar um filho a Jonas. Ele ficaria orgulhoso. No entanto, naquele momento não se animava tanto com a ideia.
Verônica deitou-se na cama, horas depois, e encontrou Jonas dormindo profundamente. Ela pôs a cabeça no peito forte e o abraçou. Fechou os olhos. Amava aquele homem, ainda que muitas vezes ele fosse ríspido com ela, e o perdoava mesmo assim, apesar de guardar aqueles sentimentos no coração. Sabia que o trabalho dele era muito estressante e perigoso. Tentava ser compreensiva e amá-lo ao máximo, afinal, Jonas era sua família agora. Ele, inclusive, havia falado algo sobre oficializar a união e ter filhos com ela. Verônica sorriu. Talvez o filho chegasse antes do casamento...